Era a década de 80 ainda ( sim, eu sou velho, e daí? ). Andava de namoro com o dial de um rádio de pilha - encontrado em algum canto da casa - que só sintonizava AM. Pegava o radinho, me atirava à sombra da grande CANELEIRA da frente da casa do meu avô e, enquanto via o parco tráfego de pedestres levantar o pó da rua com passos mais lentos do que os de hoje, desbravava um mundo sonoro ao qual, até então, não havia dado muita importância.
Por algum tempo ouvi muita breguice. Naquele tempo as rádios AM traziam o TIM MAIA cantando ME DÊ MOTIVOS e a GAL pedindo prá fazer "de conta que ainda é cedo". Se não me engano, a BLITZ também aparecia, com seus primeiros sucessos. Prá mim, que beirava os dez anos e ainda não podia fazer muita traquinagem pela rua por conta de uma bronquite asmática, era sensacional descobrir aquela coisa toda.
Mas não durou muito. Algum tempo depois, pelas mãos do meu primo/padrinho, ouvi um lance que naquele momento se apresentou como algo de outro mundo mas ao mesmo tempo de casa. Um som meio tosco, econômico, intimista, falando coisas que pareciam malucas, totalmente diferente do que eu ouvia. Por outro lado, um som familiar, com sotaque igual ao meu, falando de lugares conhecidos. Uma voz sem potência , meio sussurada , cheia de gírias e outros quetais regionais: NELSON COELHO DE CASTRO.
"me empresta tua bicicleta
vou dar uma banda dali
a gente nunca mais voltava
nunca mais voltava dali"
Foi fascínio instantâneo. Em segundos, o som chiado do rádio, martelado por meses em meus ouvidos, perdeu totalmente o sentido. Não importava toda a produção nem o vituosismo vocal e instrumental presente naquelas canções: elas não me diziam um décimo do que o grave daquela voz desleixada - porém adequada - professava.
Me tornei um bairrista de carteirinha. E nunca mais voltei dali.
Acho que foi deste momento que extraí - bem mais tarde - a opinião de que a música ( e provavelmente todas as outras artes também ) deixa de ser o que é na concepção de seu criador para transformar-se naquilo que o ouvinte consegue extrair dela. Nada além. A força que uma obra tem, é diretamente proporcional ao potencial de comunicabilidade e empatia e não aos seus predicados intelectuais.
Certamente é uma obviedade o que estou falando, né? Tudo bem, por mim. Mas eu quero chegar um passo adiante:
Eu não acredito muito no papo de arte pela arte. Pode ser um grande equívoco meu, mas é assim que penso. Acho que, no fundo, toda arte nasce com um propósito. Mesmo que seja a soberba. Como esta serve apenas aos seus criadores, então deixemos-a aos cuidados da subjetividade dos mesmos.
Bem, em qualquer be-a-bá sobre função da arte poderemos ler que se trata de tocar de alguma forma o sensorial das pessoas que a consomem, não? Seja através da estranheza, da curiosidade, da familiariedade e etc, o importante é comunicar algo.
Mas comunicar o que ? E qual aspecto funcional justifica esta comunicação ? Abordar a criação do mundo de forma leve, irônica e "fácil" ou abordar mitos gregos através de intrincados recursos semióticos baseados em "difíceis" estudos acadêmicos vanguardistas, tanto faz, em ambos os casos há o poder da comunicação, da assimilação e da identificação corroendo ou potencializando a relação artista-público.
Acho enfadonho e desnecessário ficar procurando achar legitimidade em uma coisa ou outra. Acho que tudo é válido. Assisti FILHOS DE FRANCISCO assim como assisti o O BEBÊ SANTO DE MACON. Me diverti com ambos. Me formei e me informei - e me sublimei - apenas com o segundo. Mas qual o demérito do primeiro, afinal? Talvez seja muito mais pertinente prá nossa realidade, inclusive.
Quem, ao fim e ao cabo, será o primeiro a dizer qual destas duas artes é a "difícil" e qual a "fácil" ? Eu não...
Acima de tudo isso, acho que arte tem um poder que deve ser usado sempre: o contraponto. E é exatamente por isso que, em tempos tão frenéticos como os nossos, não me interessa a inquietude, antes, sim, o seu oposto, que é o que pode trazer o equilíbrio, desopilar nossos sentidos, abrir sendas à vacuidade, dar espaço a um novo pensar.
Enfim. Escrevi demais e de forma desestruturada demais. Em suma: viagei na maionese. Não termino o papo aqui, certamente, mas passo a bola aos comentaristas de plantão.
Prá finalizar, um fragmento pertinente:
"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (...) Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se dêem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação."
Monteiro Lobato
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
O FÁCIL E O DIFÍCIL
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